quinta-feira, 11 de abril de 2013

HOMENAGEM AO PAPA FRANCISCO

ESTÂNCIA DA SANTA CRUZ (Eron Vaz Matos)

A Estância da Santa Cruz
Já tem novo capataz
É o seu Chico americano
Campeiraço por demás
Desses que fecha um rodeio
Sem deixar nada pra trás.

Seu Chico tem seu estilo
Homem simples de galpão
Uma boenita na nuca
E um bitango de algodão
Muita nobreza na alma
E a pampa no coração.

Riso de aurora no rosto
Olhar de alcançar distâncias
Conhece o vigor dos campos
Ao olfatear as fragrâncias
Pois se criou nesse meio
Pelos galpões das estâncias.

Ainda não recorreu
A estância é grande demais
Deu uma olhada por cima
No banheiro, nos currais
Courama mal estaqueada
Mas bom charque nos varais.

Já viu que da cachorrada
Pouco ou nada se aproveita
Vivem rodeando o fogão
Cuscada que não respeita
Roendo sovéus e laços
Que só um trançado ajeita.

Guaxos por dentro de casa
Gatos por todos os lados
E ratazana domina
Faz ninho até nos telhados
Eu acho que a cozinheira
Traz os gatos muy mimados.

Fios de arame rebentados
Na cerca do parapeito
Vacas do leite delgadas
Terneiros do mesmo jeito
Nuns potreirinhos rapados
Com pasto muy rarefeito.

A cavalhada da encilha
Toda matada e velhaca
A peonada muy pachola
Tirador, espora e faca
Porém na hora precisa
Não sabem “garreá” uma vaca.

Ninguém esquila um consumo
Nem corta lenha pra o gasto
As vassouras mal atadas
Parece que andam de arrasto
Onde cruzam de tão lerdos
Capaz que matem o pasto.

A peonada apreensiva
Esperando o que virá
Novas ordens, novos tempos
O capataz ditará
Parece muy bueno el hombre
Mas o tempo é que dirá.

Gado de todos os pelos
Muy desparelho e groteiro
Pretos, oscos e fumaças
Brasinos, baios, oveiros
Tourada do mesmo pelo
Tudo o que é macho é inteiro.

Disse um posteiro antigo
Conhecedor do riscado
Que existe sorro em matilha
Campo afora e nos banhados
Mas não tem um galgo bueno
Que pegue algum desgarrado.

Ovelha existe aos milhões
Cola inteira e sem sinal
Carneiros de aspas torcidas
Boca cheia por igual
Também do mesmo rebanho
Essa é a verdade atual.

A pipa de “arrastá” água
Com cabeçalho quebrado
A água vem de galeota
Quando o petiço é boleado
Como não tem mais piquete
O pipeiro anda alçado.

Os arames estão no chão
O mato fechou picadas
O abigeato campeia
Em todas as invernadas
Ninguém sabe a conta certa
De rês morta ou extraviada.

A bicheira tomou conta
Por culpa do carrapato
E o creolin que se usava
Foi proibido de fato
É o bem estar animal
É preciso melhor trato.

Nessa estância em outro tempo
Havia muita fartura
Na horta, feijão e “abobra”
Milho, mandioca e verdura
Mas os burrinhos bateram
Mermando a agricultura.

Pastores é o que não falta
Para cobrir a manada
Já, de sangue, caborteiros
Que imprimem na potrilhada
O que não sai boleador
Tem a cabeça pesada.

Eu levo fé no seu Chico
Por experiente e campeiro
Aos poucos irá arrumando
Gados, tropilhas, potreiros
Mas terá que despeonar
Muito peão e alguns posteiros.

Contratar alambradores
Caseiros e açudeiros
O gado anda com sede
E morre nos atoleiros
Na busca de água limpa
Que já não há nos potreiros.

Buscar novos domadores
Gente campeira de fato
Consertar a pipa d`água
Comprar veneno pra rato
Criar galgos e ovelheiros
Pra “tirá” o gado do mato.

Um guasqueiro de respeito
Pra consertar os aperos
Fazer laços, maneadores
Anilhos, sovéus, tamoeiros
Buçais e cabrestos fortes
Para os serviços domeiros.

O demais vai se ajeitando
Conversando co’a peonada
Exigindo xergões limpos
Cavalhada bem tosada
E os cascos bem aparados
Pra diminuir as rodadas.

Refugar vacas machorras
Em criterioso aparte
Falhadas de ventre e dente
Nisso não tem muita arte
Touritos que são novilhas
Colocar tudo em descarte.

É um trabalho persistente
Fazer um gado padrão
Com seleção permanente
E muita dedicação
Bom manejo nos potreiros
E rédeas firmes na mão.

“Desmamá” na hora certa
E cuidar bem do rebanho
Retirando a lã dos olhos
Com isso tem-se bom ganho
Não morrerão nos peraus
Dando um prejuízo tamanho.

Tirar os gados dos matos
Leva-lo de encontro à luz
Já que o sol nasce pra todos
E a um bom destino conduz
Assim Jesus salvará
A Estância da Santa Cruz.

Versos de ERON VAZ MATOS